Entrevista: criadores da série discutem a season finale e as diferenças do livro

No começo desta semana o canal SyFy exibiu o último episódio da 1º temporada de The Magicians, deixando seus espectadores com um final em aberto que provavelmente será discutido até o retorno da série no próximo ano. Baseado na trilogia Os Magos por Lev Grossman, os 13 episódios desta temporada nos tiraram de uma Nova York angustiante e nos levaram para o belo campus da Universidade de Brakebills e então para o reino de Fillory. Tudo isso enquanto os jovens heróis lidavam com os seus demônios de seu passado e presente, reais e metafóricos.

O primeiro ano teve seus problemas, mas na maioria das vezes fez um bom trabalho em adaptar os livros enquanto construiu uma série de TV que pode sustentar-se por conta própria, explorando maneiras de lidar com temas como depressão e experiências traumáticas. Após assistirmos a season finale conversamos com Sera Gamble e John McNamara, os co-criadores e showrunners de The Magicians, sobre a visão da história que eles queriam contar e como foi adaptar os livros de Lev Grossman para a Tv.

 

Ao destacar as histórias da temporada vocês planejaram o quanto, onde e como iriam se distanciar dos livros?

JM: Sim, desde quando terminamos de escrever o piloto tivemos um forte senso do arco geral da série neste primeiro ano e das próximas temporadas.  Tínhamos apenas os dois primeiros livros quando escrevemos o piloto, o terceiro foi lançado enquanto ainda estávamos filmando.

SG: Foi mais ou menos por aí, lembro de ter ficado extremamente animada por ser tão bom.

JM: Com certeza, é o meu favorito dos três.

SG: Não é como se tivéssemos uma lista particular das coisas que gostaríamos de mudar dos livros. Foi um processo mais natural que envolveu trazer o espírito dos livros para a série: se fosse possível manter a história, ótimo; se não, teríamos que mudar e foi ótimo também. Nós apenas fizemos o que tínhamos que fazer para transpor a história para a tv.

Qual a sua visão do tema predominante dos livros que você quis levar para a série?

JM: Acredito que o que mais nos atraiu foi o fato da criança mais vitimada nos livros de Fillory ser, na verdade a Besta. Achei extremamente fascinante e muito original, o que transcendeu o gênero de fantasia e elevou os livros a um ótimo drama shakespeariano. Há também toda a diversão de histórias fantásticas e suas figuras típicas, Lev é um grande fã do gênero e tornou tudo bem meta, o que também adiciona uma camada de diversão na história.

Mas, no final, é realmente sobre sobrevivência. Há duas maneiras de sobreviver a um trauma: você supera aquilo que te torna uma vítima  ou você se torna igual, Martin é um clássico exemplo de alguém que se torna algo pior do que seu abusador. Sem querer dar spoilers, mas será que Julia seguirá o mesmo caminho de Martin ou ela irá superar? Este é o questionamento que deixamos em aberto no final da primeira temporada: qual será o destino de Julia?

Na série há constantemente um contraste entre as histórias de Quentin e Julia. Se parar para pensar sobre o caminho que Julia irá seguir de agora em diante, o que vocês estão tentando explorar futuramente em relação a este contínuo relacionamento com Quentin?  Este contraste foi um tema dominante neste primeiro ano.

JM: Bem, a última coisa que vemos na season finale é Julia seguindo adiante com seu plano que envolve a traição de Quentin, o próximo passo para este relacionamento é lidar com as consequências desta decisão.

 Nos livros Alice é uma mártir na batalha final. Enquanto que a série teve um foco em seu relacionamento com Quentin e como eles se reconciliam. Fiquei pensando nesta mudança e por que colocar a Julia como ponto central  da trama em relação a final e a batalha com a Besta? As duas são de grande importância na vida de Quentin, mas fiquei em dúvida por que vocês decidiram se focar na Julia ao invés de Alice.

JM: Para ser honesto eu tenho que discordar sua conclusão. O que fizemos foi introduzir a Julia na batalha final ( nos livros ela não está lá quando ocorre a confronto com a Besta). Mas Alice recebeu o mesmo peso emocional, ao assistir o episódio você consegue ver com o tamanho do trauma de Julia e ainda assim perceber o heroísmo de Alice, além do fato dela ser a maga mais talentosa entre eles e talvez – spoilers – ela esteja preparada para ser uma mártir. Mas meu ponto é que temos apenas 13 horas para explorar estes personagens e o que fizemos até agora foi apenas introduzir uma maior complexidade.

Por um lado, nós introduzimos a história da Alice em direção ao heroísmo e por outro a história da Julia e seu trauma. Ela está tentando realizar algo bom e acaba trazendo um fato  absolutamente horrível, ela está terrivelmente machucada – emocionalmente e fisicamente. O que ela fará com isso? Ela não é mais a mesma de antes, assim como a Alice é diferente agora.

Neste momento eu acredito que vocês não queiram confirmar se alguém está morto ou vivo para a segunda temporada, fora Quentin e Penny…

JM: Não, não acho que você gostaria que fizéssemos isso, se é um fã.

Mas em relação a Besta, que é o grande vilão de toda a temporada, vocês gastaram um bom tempo explorando o personagem de Martin e Christopher Plover e a ameaça da Besta. Vocês tiveram alguma preocupação em construir toda a trama na expectativa de uma batalha contra ele, para acabar a série neste gancho em que não tivemos exatamente um clímax do confronto?  

SG: Não sei, tivemos esta preocupação, John?

JM: Não.

SG: É, não acho que tivemos. Senti que tínhamos uma grande responsabilidade em entregar uma final que aprofundasse os problemas do grande vilão, mas além disso uma das coisas que somos responsáveis ao contar a história de The Magicians – a série baseada nos livros – é que temos que ter certeza que nossos personagens são complicados, humanos e adultos. Eles não podem ser crus ou simples, isto incluí os vilões. Quando  humanizamos a Besta, também somos responsáveis por sua história de uma maneira que não podemos simplesmente acabar com uma grande cena de ação com tiros entre eles ( ou a versão mágica disso). Da mesma maneira que o reitor Fogg não é Dumbledore, a Besta não é Valdemort. Apesar da série empregar muitos elementos e reconhecer sua importância, não é este tipo de narrativa que estamos contando,  é uma versão diferente deste tipo de história. Então a ameaça da Besta irá permanecer.

 

 

Fonte: Polygon