Fillory and Further: Nova entrevista com Lev Grossman

No começo de maio, Lev Grossman, autor dos livros de The Magicians, concedeu uma entrevista exclusiva para o fansite “Fillory and Further”.  Ele não se esquivou das perguntas dos fãs e revelou detalhes e esclarecimentos bem legais sobre a criação da trama.

ATENÇÃO: Essa entrevista contém spoilers sobre a trama dos livros de The Magicians (Os Magos, O Rei Mago e The Magician’s Land)

Fillory e Further: No final de “O Rei Mago” há uma conversa entre Ember e Quentin em que o deus-carneiro diz a ele que “o herói deve pagar o preço”. Sacrífico é um tema recorrente na trilogia Os Magos, diversos personagens poderiam ser caracterizados como heróis por esta definição. O quão consciente foi sua decisão em criar a história com tantos protagonistas e heróis em potenciais?

Lev Grossman: Não muito consciente. Por outro lado, eu sabia que não queria que Quentin fosse o “escolhido”. Eu queria que ele sentisse que aqueles ao seu redor eram tão ou mais heroicos como ele e que todos eram protagonistas de suas próprias histórias, o fato de o leitor acompanhar a perspectiva de Quentin foi apenas um acidente. Ele não é um anti-herói e nem um herói no sentido clássico, por isso, busquei retirar toda concentração de protagonismo e distribuir de uma forma equilibrada entre os personagens, assim como é na vida real.

Fillory e Further: Há outros personagens que, de certa forma, perdem uma parte de si que os torna humanos. O que significa alguém perder sua humanidade?

Lev Grossman: Pessoas são emocionalmente voláteis. Sei que sou assim, mas acredito que todos sejam.  Quando ocorre de alguém passar por um estado emocional extremo – fúria, depressão, luto, desejo, ódio – às vezes você se sente menos humano ou até mesmo sobre-humano. Você se sente como algo a mais, o que acontece nos livros é que os personagens são literalmente transformados em algo a mais. Uma das coisas que eu mais amo no gênero fantasia é a capacidade de fazer esta transformação ser visível fisicamente, assim como sente-se por dentro.

Fillory e Further:Existem muitos paralelos entre Quentin e Martin Chatwin. O que isto significa? É quase uma dinâmica Harry Potter/Voldemort entre os dois – isto tem alguma coisa a ver com o fato de ser o grupo de amigos de Quentin que finalmente o derrota ou foi apenas azar? E por que não importe quantas vezes Jane retorna no tempo Martin sempre acaba como a Besta?

Lev Grossman: Há uma dinâmica bem parecida com Harry/Voldemort entre eles. Diria até mesmo uma conexão maior ainda do que em Harry Potter – Martin e Quentin desejam o mesmo. Não poderia dizer com certeza se Quentin estivesse no lugar de Martin ele não teria feito o mesmo.

Eu realmente acredito que o profundo anseio de Quentin por Fillory talvez seja a razão pela qual ele e seus amigos sejam aqueles que derrotaram Martin. Embora não seja a única razão. Em relação a Martin acabar sempre como a Besta……Bem, talvez Jane simplesmente não seja capaz de girar o relógio o bastante para retornar a um período antes da transformação de Martin. Ou a mágica tenha um range de tempo limitado. Outra possibilidade é que a versão de múltiplos universos do mundo de Os Magos não exista infinitas possibilidades, mas apenas caminhos limitados pré-estabelecidos. Ou seja, alguns acontecimentos são verdades absolutas e ocorrem em todos multiversos, Martin tornar-se a Besta é apenas um destes fatos.

Fillory e Further:Vamos falar sobre os “niffins”. O Reitor Fogg sugere que alguém se transforma em niffin quando é inundado pelo uso da magia. Podemos estabelecer diversas metáforas para o estado de ser um niffin com vício, doenças mentais e etc. Você poderia nos dizer qual a sua visão sobre o estado niffin e como isto relaciona-se com conceitos do mundo real?

Lev Grossman: Posso tentar, embora seja uma visão extremamente pessoal. Como mencionei antes, sempre soube o perigo de sentir sobrecarregado por minhas emoções e ser destruído por sua intensidade. É isto o que é ser um humano no dia-a-dia para mim. Escrever é parecido – sempre que escrevo sinto que estou em um ponto de emoção à beira de um desastre. Como se fosse muita coisa para conter (de certa forma, na trilogia a mágica é uma metáfora para o ato de escrever). Se tornar um niffin é sobre perder o controle, se afogar em suas próprias emoções.

Há muitos anos atrás – cerca de 25 anos – eu li em uma revista a descrição de uma mulher tendo um colapso nervoso e como ela sentiu que estava se transformando em uma bola de fogo. Foi marcante e me deixou bastante perplexo, no final do artigo estava algo do tipo “agora ela era uma bola de fogo sentada no aeroporto. Ninguém percebeu”.

Isto provavelmente ressoou bastante no trecho sobre niffins em Os Magos. A niffin é o que ocorreria se o que sentíssemos acontecesse literalmente. É uma experiência que pode ser uma analogia para um monte de coisas – de vício e doenças mentais, mas até mesmo para criações artísticas e o amor.

Fillory e Further: Uma das coisas que é mencionada bastante em nossos chats e no Tumblr é como na trilogia a empatia é extremamente presente. Quentin em especial é extremamente falho e, ainda assim, você o escreve com tamanha benevolência. Acho que grande parte do que distingue The Magicians de outras séries fantásticas é esta riqueza de empatia e identificação com as falhas dos personagens. Como você explora e empenha esta empatia em situações tão difíceis durante a história?

Lev Grossman: É verdade que Quentin não é muito empático e não sabe lidar muito bem com isto. Acho que é um efeito colateral da depressão que normalmente torna você focado em si mesmo.

De muitas maneiras, The Magicians é uma tentativa de corrigir a falta disseminada de empatia nos livros de fantasia. Isto é uma grande generalização, obviamente, e não é uma crítica, mas como muitas das histórias têm como base contos de fadas e seres mitológicos estes personagens simplesmente não têm vidas internas da mesma maneira que pessoas reais. Tentei corrigir isto, dar a eles a complexidade interna em situações que normalmente não ligamos. Por exemplo quando os alunos de Brakebills veem atos de violência pela primeira vez do lado de fora da tumba de Ember, é bem leve comparado a outras obras de fantasia, mas isto os destrói.

Fillory e Further:Queríamos perguntar sobre a cena mais polêmica dos livros, o estupro de Julia pelo deus-raposa em O Rei Mago. Mulheres são constantemente vítimas de violência sexual em livros de fantasia ao ponto de ser considerado até mesmo um “trope” ( um elemento de narrativa regularmente usado, conscientemente ou não). Por que você escolheu este caminho para a estória de Julia? Como foi a experiência de escrever algo tão traumático? E, finalmente, como você vê a resposta do público em relação a esta parte da história?

Lev Grossman: Eu acho que é o que realmente aconteceria. A busca de deuses de Julia e seus amigos eventualmente levaria a isto, na mitologia grega os deuses frequentemente estupravam os mortais, se acovardar disto seria errado, como se eu tivesse ignorando a realidade da violência sexual tanto dos seres mitológicos como na vida real.

De fato, eu sempre me senti incomodado em como histórias assim são escritas, como se um estupro de um deus a um mortal fosse algo belo – Leda e o Cisne, Daphne e Apollo e etc. É um tipo de história que é constantemente romantizada, isto é errado. Ser estuprada por um deus seria algo aterrorizante, por isso dar este tom de terror na história.

Escrever esta parte foi agonizante. Horrível mesmo. De todos os personagens da trilogia é Julia quem mais eu me identifico. Conheço pessoas próximas que sobreviveram a um estupro, queria respeitar suas experiências sem banaliza-las.  Até mesmo no processo final do livro eu considerei retirar aquela cena, conversei com muitas mulheres sobre isso: minha esposa, minha editora, minha agente literária; mais do que da metade dos meus leitores são mulheres, ninguém nunca sugeriu que eu retirasse.

Mas eu prestei bastante atenção na resposta do público. Há diversas pessoas que não experienciaram esta cena da forma que eu imaginei, não entenderam aquilo que eu gostaria que elas tivessem entendido, considero isto inteiramente minha falha como escritor. Como autor não é o certo falar isso, mas se eu pudesse escreveria aquela cena diferente. Tentaria ser mais claro sobre o motivo daquela cena estar lá e, se não conseguisse, eu teria retirado.

Fillory e Further: Em contraste com Quentin, Eliot manteve seu ideal de buscar quem ele deveria ser durante a trilogia. Como ele consegue manter este ideal apesar de todas os acontecimentos que podem desiludi-lo? Ele está “errado” se o compararmos com Quentin, cuja jornada é criar seu próprio destino, ou são apenas maneiras diferentes de olhar para o mundo?

Lev Grossman: Não acho que Eliot esteja errado. Auto-realização é um péssimo termo, mas é o que melhor descreve o que aconteceu com Eliot: ele tornou-se aquele alguém que ele deveria ser, não é bem destino, mas ele alcançou um estado em que ele se sente bem sendo quem ele é, o que é mais do que qualquer um de nós pode esperar. Acho que ao final de The Magicians Land Quentin se sente de forma parecida, embora seu processo tenha sido completamente diferente de Eliot.

Fillory e Further:A teoria de Richard no primeiro livro de que a magia era uma ferramenta deixada pelos deuses foi, em partes, confirmada no segundo livro. O quão consciente foi esta decisão?

Lev Grossman: Primeiramente, gostaria de esclarecer que sou um ateísta e não me identifico com nenhuma organização religiosa. A teoria de Richard foi a mais próxima, mas ainda assim está longe da verdade dos criadores. Ao contrário dos outros ele realmente foi o único que refletiu seriamente sobre os poderes deles e suas consequências.

Fillory e Further: Há vários fãs de The Magicians que estão tentando a carreira de escritor. Quais são as suas palavras de encorajamento para eles?

Lev Grossman: Se é realmente o que você quer, nunca desista. Mesmo que você se sinta perdido, ou cheio das rejeições, continue tentando porque cedo ou tarde você vai chegar lá. Se achar que está levando muito tempo, lembre-se que eu tinha 35 anos quando iniciei a escrever The Magicians (e levou ainda mais 5 anos para ser publicado). Eu levei todo este tempo para encontrar minha voz, as chances de você encontrar a sua antes disso são bem maiores.

Fonte

Tradução: TMBR