FORBES: Hale Appleman fala sobre a vida em Brakebills

Se você é fã de mistério e fantasia e ainda não assistiu “The Magicians”, você está perdendo um pouco de magia. A série astuciosamente lança seu sombrio, frenético e frequentemente divertido feitiço em seus espectadores. Ainda que não consiga capturar completamente o encanto dos livros de Lev Grossman, a série do Syfy oferece um pouco de diversão garantida toda segunda-feira à noite.

Hale Appleman é às vezes o divertido, vulnerável compasso da série. Ele interpreta Eliot, o líder não-oficial do grupo de magos na Universidade de Brakebills, com sagacidade e confiança. Recentemente batemos um papo com ele e conversamos sobre seu papel em The Magicians como um todo.

FORBES: O que te atraiu inicialmente ao papel de Eliot e na série em geral?

Inicialmente fui atraído pelo humor dele, despretensão e sua fácil confiança – especialmente ao encarar circunstâncias extraordinárias. Eu entendi sua ferocidade logo de cara, o que admiro. Então logo descobri a sua complexidade, ele é dinâmico e cheio de camadas. É um personagem preso pelo passado, mas que foi liberto pela nova história que está escrevendo. Para mim há algo de universal nisto, a forma com que ele está conscientemente construindo uma nova identidade para si é peculiar e fascinante. Este desejo de recriar sua própria imagem é o que mais me atraiu, pois ele não é parecido com nenhum outro personagem que já tenha visto na Tv.

Em relação a série, o roteiro me intrigou imediatamente. Sempre amei séries de fantasias, aventuras e magia quando criança. A minha primeira audição para “The Magicians” aconteceu após conversas com um amigo próximo que logo me entregou o primeiro livro. Eu comecei a ler e me apaixonei pelo mundo e personagens que Lev Grossman criou.  Fui conquistado por sua ideia de explorar contos e histórias idealizadas em nossa infância aos olhos de um adulto, ou de jovens adultos. As coisas não são tão simples quando a vida te abate.

Normalmente sou bem tranquilo quanto às audições. Costumava ser bem supersticioso em não conversar sobre isso, mas assim que agendei o teste não conseguia calar a boca e conter meu entusiasmo.

FORBES: Como a série te surpreendeu?

É impossível se preparar totalmente para que o vamos encontrar no set. Sou constantemente surpreendido em ver como dão vida aos cenários. Uma coisa é ler os eventos dos próximos episódios, outra bem diferente é adentrar naquele mundo. Acaba que o que imagino é quase tão bom quanto o que os nossos designers preparam para nós, o que facilita nosso trabalho.

É realmente divertido vestir as roupas no set e ser transportado para a cabana dos Caras da Física, ou para a floresta mais bonita que já vi com balanços e lustres nos galhos das árvores. Não é como se fosse mais um dia no trabalho, sempre há uma nova surpresa. Todo episódio é único.

FORBES: De alguma maneira Eliot parece ser o personagem menos interessado em magia no programa…

Tenho que discordar completamente. Talvez isto venha de um contexto do personagem mais do que tudo, mas Eliot já está consolidado na magia quando o conhecemos. Ele é a primeira criatura mágica que Quentin encontra em Brakebills. De uma forma estranha Eliot é o Mr. Tumnus ( personagem de As Crônicas de Nárnia), seu guia mágico naquele mundo. Ele já está alicerçado nos ciclos mágicos de Brakebills, aquilo não é novo para ele, seus anos de passagem já se foram. A história não é sobre Eliot adquirindo seu poder, ele não está escolhendo lutas mágicas nos primeiros episódios porque ele não precisa – aquele já é o seu mundo.

Ele se sobressai no ranking da escola, é amado ou rivalizado pelos demais alunos e se importa mais do que tudo com sua permanência em Brakebills. Ele apenas não quer que as pessoas saibam disso. Este é o primeiro lugar que ele se sentiu verdadeiramente livre para ser ele mesmo. Nos livros Quentin nota que nunca vê Eliot estudando, mesmo assim ele consegue se sobressair nas aulas. Talvez seja um gênio ou um mago nato, ou os dois. Magia é a identidade de Eliot.

Por isso não creio que ele consiga funcionar verdadeiramente fora deste ambiente mágico. Fãs dos livros conhecem o lugar onde Eliot pertence. Não é Nova York ou Breakebills. Ele está escapando mais e mais para o mundo de fantasia que criou, o que inevitavelmente irá guia-lo para onde ele verdadeiramente pertence.

Então eu diria que ele é sim o mais interessado em magia – com exceção apenas de Alice. Isto porque ele não cresceu rodeado pela magia, mas você o verá lançando mais feitiços ao final da temporada.

FORBES: Como ator qual o momento mais significativo para você na série até o momento?

Lembro da leitura do primeiro episódio com os demais atores e nosso diretor (Mike Cahill), senti que aquilo poderia ser o começo de algo realmente especial. A sala vibrava, ou talvez fosse apenas New Orleans….Mas sentir todos juntos pela primeira vez foi um momento marcante.

FORBES: Você acha desafiador manter uma atuação mais realista em um programa que foca em magia e fantasia?

Eu tento me manter fiel ao personagem escrito por Lev Grossman, tento honrar as características dessa pessoa tanto quanto possível. Os livros realmente me ajudaram a centralizar a focar no personagem quando sinto que estou perdido em como deveria me portar. É um presente como ator ter tanta informação previamente sobre a trajetória do personagem.

Ele está tentando escapar para a “fantasia de Eliot”. É uma ideia de melhora de si mesmo que está constantemente evoluindo. É confuso lembrar que este cara está criando uma persona e andando pelo mundo com esse ar de confiança, enquanto esconde o seu “verdadeiro eu” embaixo do tapete.

As roupas, cabelo, maquiagem contam a história de quem ele quer ser em um determinado dia, além de me ajudarem a continuar no personagem. Sou sortudo por ter um ótimo relacionamento com Magali Guidasci, nossa estilista. Ela é brilhante e inspiradora, provavelmente a responsável por uma boa porcentagem da minha performance. As roupas realmente me ajudam a entrar no personagem e algumas peças são escolhidas especificamente para representar o estado emocional de Eliot em uma determinada cena.

FORBES: Quais são as coisas do dia a dia que te motivam como ator; quais são as coisas que motivam Eliot como personagem?

Ele e eu somos bem diferentes. Eu trabalho a partir dos sentimentos e intuição, enquanto Eliot do controle e poder. Eu trabalho constantemente para ser mais transparente em relação aos meus sentimentos. Eliot não consegue falar disso ou expressar facilmente suas emoções, ele é bloqueado nessa área. É um personagem que está de mal com suas emoções porque elas nunca o ajudaram na sua vida, falta-lhe as ferramentas necessárias para realmente expressa-las.

FORBES: Como você saberá se a sua representação de Eliot foi bem-sucedida?

Não sei se realmente saberei. Com certeza haverá intermináveis opiniões sobre ele como eu e eu como ele. Mas minha principal preocupação é criar o Eliot dos livros de Lev, assim os que são conectados ao material de origem não se sintam enganados ou decepcionados pela minha representação.  Lev Grossman me concedeu sua benção e serei eternamente grato por isso. Fui sortudo o bastante para receber algumas mensagens calorosas de alguns fãs fiéis. Isto ajuda a aliviar um pouco da pressão…

Mas Eliot é um projeto de longo prazo para mim. Há tanto o que explorar e descobrir sobre ele. Espero ter bastante tempo para revelar suas facetas, sinto que até o momento apenas mal arranhei a superfície. Estou muito agradecido por uma segunda temporada.

FORBES: O que você precisa ver ao assistir os episódios para estar satisfeito com sua performance?

Não sou um desses atores que amam assistir seu próprio trabalho. Sou mais introvertido, não gosto de festas de exibição e coisas desse tipo. É impossível para mim assistir algo que eu criei e simplesmente dizer “perfeito, estou 100% satisfeito”. Minha satisfação vem mesmo da exploração do personagem e então de sua interpretação no dia a dia com meus companheiros de série.

FORBES: Qual o papel de Eliot em seu grupo de amigos de Brakebills? Como ele lida com eles e o que o intimida?

Ele é o príncipe não oficial de Brakebills. Ele é o cabeça, o agitador de festas, aquele que guarda pequenos segredos e fatos poucos conhecidos. Ele assume uma posição de autoridade e poder, controle e sofisticação. Além disso ele tem um lugar para presidir e irá comandar tanto quanto possível.

Ele tem medo de ser exposto, de ser vulnerável e seus sentimentos mais profundos o aterrorizam. Ele também tem medo de quem ele costumava ser – há muita vergonha, culpa e dor nesta parte de sua vida que ele prefere não confrontar. Poder e controle é o jeito que ele encontrou para reverter este capítulo de sua vida. Além do humor, claro.

FORBES: Você leu os livros antes de aceitar o papel? Se sim, como você acha que a série e o livro diferenciam-se?

Eu li todos enquanto estava realizando o processo de audição para o programa. O tom da série é consistente com os livros no geral. A série definitivamente encontra sua própria maneira de abordar a mesma história, só que com meios diferentes do que no livro. Acho que isto ajuda os personagens e histórias se revelarem de uma forma surpreendente. O mundo criado por Lev Grossman é épico e multifacetado, há muito mais o que explorar.

FORBES: Você gosta de histórias fantásticas?

Sim.

FORBES: Você é normalmente atraído por este tipo de série/filme/livro?

Normalmente não, mas quando criança fui um grande fã de aventuras fantásticas, como os livros do Tolkien, Nárnia, Medeleine L’Engle, Lewis Carroll, Os Cavaleiros da Távola Redonda, mitologia grega, a lista é infinita…”Star Wars”, “E.T”, qualquer coisa feita por Jim Hedson, etc…

A arte no geral é uma grande parte da minha vida. Cresci em NY, minha vida inteira fui a escola de artes, meus pais são artistas. Amo ir ao cinema, música me mantém vivo, venho do teatro.

Como devemos esperar que Eliot mude durante a temporada?

Será interessante assistir Eliot seguir um caminho mais sombrio. Haverá humor e um tom mais leve durante alguns momentos, mas ele tentará evitar seus sentimentos em uma maneira totalmente diferente. Seu nível de negação é irracional.

FORBES: E o que virá a seguir?

Não sei muito sobre a segunda temporada, mas acho que ocorrerá grandes mudanças na vida do Eliot.

FORBES: Qual foi a reação do elenco quando vocês descobriram que a série foi renovada para uma segunda temporada?

Foi engraçado porque a resposta inicial foi meio que um “aguardem”. Estava torcendo muito, foi difícil porque todos estavam investindo no programa. Então foi uma surpresa a série ter sido renovada tão cedo, é um alivio saber que continuaremos a interpretar estes personagens e explorando este mundo.

FORBES: Para você qual o momento mais marcante para o Eliot como personagem até agora?

O momento mais importante é quando ele abre seu coração no episódio 8, o que é um pouco fora do personagem para ele. Acho que Eliot se deixa levar por essa nova sensação que ele mal consegue explicar. Mas é visceral e surpreendente e ele segue.

Quando ele e Mike se abrem intimamente no jantar, você percebe que Eliot é um garoto que não está acostumado em ser amado, de ser genuinamente aceito pelo o que ele é.  Há um garoto devastado dentro de Eliot que foi realmente à tona pela primeira vez, ironicamente por alguém que o lembra de caras da sua infância. Caras que nunca aceitariam ele, que batiam e o confrontavam fisicamente ou sexualmente de forma que ele se sentiria humilhado.

Este momento de vulnerabilidade, combinado com a inevitável traição parece-me que é o segmento mais importante até agora. A forma com que Eliot responde a rejeição é uma breve prévia de sua fúria e poder como um Mago. Eliot é feroz, amei explorar todo este lado.

FORBES: Por que Eliot virou as costas para a Margo e preferiu ficar com o namorado Mike?

Eliot foi pego de surpresa por um sentimento que ele nunca teve a oportunidade de explorar, ainda mais com alguém que representa seu passado. É uma oportunidade de cura, de sentir uma conexão amorosa com alguém que normalmente não ligaria para ele no passado. Ele não assume que Margo esteja sempre lá por ele, mas sua dinâmica com homens é muito complexa para não ser explorado.

Ele nunca se sentiu amado por alguém que não seja a Margo e ele quer desesperadamente isto. É um risco e tanto, ele não tem muita experiência revelando seus segredos. Talvez ele pense que possa superar seu passado sombrio se tiver uma experiência positiva com alguém que venha de um lugar parecido.

Ele e Margo são destinados a permanecerem juntos para sempre. Eles são o mais próximo de família que cada um têm. Individualmente eles estão amedrontados em enfrentar seus problemas pessoais. Eliot deu o primeiro passo, mas caiu.

FONTE: FORBES