Lev Grossman fala sobre escrita, depressão e magia

Lev Grossman é o autor da triologia de best-selleres: Os magos (2009), O rei mago (2011) e The Magician’s Land (2014), bem como, também faz parte da equipe de críticos literários do Time. No começo de 2016, o canal Syfy estreou The Magicians, adaptação para televisão do trabalho de Grossman.

“Do mesmo jeito que George RR Martin está reescrevendo Tolkien, eu estava reescrevendo ‘Harry Potter’”

Observer: As pessoas chamam [a trilogia de Os magos] de Harry Potter para adultos- isso é algo que você atribuiria? Você quis lançá-la dessa maneira?

Lev Grossman: Não, eu não quis, porque não sou tão esperto. Alguém bem mais esperto no departamento de marketing deve ter pensado para esse lado. Eu estava sendo cauteloso já que eu estava levando essa narrativa que é realmente central para nossa cultura – é como se fosse uma coisa universal nessa geração – eu estava pegando isso e estava tornando mais sombrio. Estava ainda adicionando uma estranha e grossa textura. Eu não estava pensando nisso como um Harry Potter para adultos.

É então como Nárnia de Nolan?

Eu sou o único não-fã de Nolan no mundo, então eu entendo o que você diz com isso, mas eu penso nisso em como do mesmo jeito que George RR Martin está rescrevendo Tolkien, eu estava rescrevendo Harry Potter.

Mas que seus livros são muito mais inspirados em Nárnia!

Bem, Harry Potter é meio que um pretexto para chegar a Nárnia, porque eu li Harry Potter quando tinha 30, mas não está no meu DNA. Nárnia está bem inserido no meu DNA, e eu sempre soube que iria chegar lá.

Você se vê em Quentin? Ele é como um “substituto” para você em alguns aspectos?

Eu costumava ser o Quentin há muito tempo atrás. Eu era meio que… ele é uma espécie de superdesenvolvido intelectualmente e emocionalmente imaturo. Sim, teve um momento na minha vida em que eu era essa pessoa, e eu era tão obcecado com fantasia e mundos imaginários que eu poderia simplesmente não prestar atenção na minha própria vida, o que estava acontecendo no mundo real. Eu não era tão alto quando Quentin… isso foi só um desejo realizado.

Como você é em truques com cartas?

Eu sou bem ruim neles. Quando eu estava trabalhando no livro, eu tentei aprender – eu pensei, isso vai ser legal, enquanto eu escrevo esse livro, eu vou ao mesmo tempo me tornar um mago de truques de mão. Exceto que magia é bem difícil, e eu sou realmente muito ruim. Eu não conseguia fazer o básico. Eu tenho um super respeito por pessoas que conseguem fazer mágica de palco, porque eu não consigo, mesmo.

Então, uma das coisas que senti enquanto lia a trilogia é que magia é tão difícil e chato que quase não parece valer a pena?

Sim, é bem difícil.

É um tipo de química orgânica. Como, na vida real nós podemos pegar coisas, transmutar e mudar sua composição, mas é realmente complicado.

É como química orgânica. Você já estudou química orgânica?

Sim, foi um pesadelo.

Eu estudei química- eu não cheguei a química orgânica, eu tive qualquer coisa que tenha vindo antes disso. Química inorgânica? E eu me empenhei para passar por isso. Eu pensei que eu seria um bioquímico, eu acho bioquímica realmente interessante. Eu estava procurando por uma carreira com a mínima interação com outros seres humanos e eu pensei se poderia ser um rato de laboratório ou coisa assim, então eu poderia ficar no laboratório o tempo todo. Eu amava o laboratório. E mais tarde na vida eu namorei uma rata de laboratório, e eu ainda pensava que a vida dela era incrível. Mas eu não era bom em química, eu consegui um A– no meu curso. Meu pico acadêmico foi esse A enquanto calouro; eu não sei como fiz aquilo. Mas eu sabia que seria o único.

Então você decidiu perseguir um Ph.D em literatura comparativa?

Bem, eu nunca consegui um Ph.D. A resposta verdadeira é que eu era bom nisso. Eu acho que ler Mrs. Dalloway foi uma virada para mim. Quando eu li Mrs. Dalloway, eu pensei, eu posso me esforçar em química e entender 80% daquilo, mas eu senti como se entendesse como [Mrs. Dalloway] funcionava. Eu olhei para aquilo, e senti como se pudesse ver as partes se movendo, eu entendi a estrutura, eu entendi sobre o que falava. Foi a única coisa que eu senti que tinha talento – ler livros e falar sobre eles.

Isso é interessante, porque se você era uma criança de ensino médio que entrou em Harvard, presumo que você era bom em muitas coisas.

Sim, eu estava bem afiado no ensino médio. Eu trabalhei duro. Eu não conheço ninguém que tenha se esforçado tanto como eu no ensino médio. Eu estava obcecado. Eu não conseguia suportar notas ruins – simplesmente não conseguia. Mas eu não era brilhante o suficiente para simplesmente navegar por tudo; eu tinha que realmente me esforçar. Eu acho que ganhei um prémio por escrita no segundo ano do ensino médio, e eu acho que foi a primeira vez que eu senti que tinha talento para alguma coisa. O resto, eu só me virei. Mas estamos saindo do tópico. Ler sobre magia, especialmente Harry Potter, mas mesmo em outros contextos, eu nunca senti que era tão difícil. Na verdade, ainda não sei porque magia era difícil em Harry Potter, eu ainda não sei porque poções é tão difícil! Poções é muito fácil. É cozinhar! Eles dizem, “Essa é sua receita”. Eu quero dizer, eu cozinho, mas não é difícil. Você mexe em sentido horário [ele mexe em sentido horário] eu digo, sentido horário. É só você seguir as instruções. Eu senti como se você vai ter poderes mágicos, você vai ter poderes mágicos. Você tem que merecer. E eu queria que meus personagens merecessem. E você sabe, eu fiz eles trabalharem por isso.

O primeiro livro tem uma linha do tempo bem interessante. Você sabia que iria comprimir 6 anos de vida de Quentin em um livro?

Eu fiz com que ele pulasse um ano no meio porque [eu sabia] que eu não conseguiria passar por cinco anos. Estruturalmente, o modelo para The Magicians não foi Harry Potter; foi de Memória de Brideshead. O filme não é bom, mas a mini série com Jeremy Irons é fantástica. É muito boa. Eu fiquei um pouco obcecado com o Memórias de Brideshead, tanto quanto eu estava recontando Harry Potter e Nárnia, eu estava recontando Memórias de Brideshead, a história de ter essa educação pastoril, utópica com traços de escuridão e então sair para o mundo real e ser derrotado pela chatice.

Tem Grandes Expectativas lá?

Não conscientemente, não muito. Eu nunca gostei muito daquele livro. Eu não gosto muito de Dickens. Eu estudei Dickens na faculdade. Eu tenho uma espécie de respeito por ele, mas eu nunca o li de bom grado.

Como você se sente em relação a Shakespeare?

Minha educação sobre Shakeaspeare é bem ruim, mas sou definitivamente um fã. Meu conhecimento sobre Shakeaspeare consiste maioritariamente em ler Hamlet de novo porque ele vai até o fim. Eu amo Shakeaspeare. Honestamente, tematicamente, só a figura de um personagem que a mente está girando a 16 milhões de quilômetros, mas ele se vê incapaz de agir, é bem real para mim. Stephen Dedalus é assim para mim.

Quem você acha que é o personagem que mais irradia simpatia no livro?

Minha simpatia é sempre com a Julia. Quentin é um adolescente para mim; Julia é bem mais próxima de mim em meus vinte, trinta anos. Eu sinto uma identificação muito grande com ela.

Então, Eliot tem uma cena de sexo no começo do primeiro livro, e esse aspecto do personagem não é mais tocado…

As pessoas têm me perguntado o porquê de Eliot não ter uma história de amor descente. Os livros ficam um pouco sobrecarregados com a trama, e eu tive problema em encontrar espaço para essa parte. E se eu for honesto, estava me faltando um pouco de confiança. Eu digo, quando eu escrevi Os magos, foi tudo do ponto de vista de Quentin. Eu escolhi o personagem que era mais superficialmente parecido comigo porque eu não tinha confiança em mim enquanto escritor, naquela época. E eu não sabia que poderia escrever do ponto de vista de alguém que fosse diferente do meu. Escrever a Julia foi uma grande revelação para mim; eu nunca tinha escrito do ponto de vista de uma mulher, eu achei incrivelmente libertador. Eu nunca aprofundei a história de amor de Eliot, e também – e isso é totalmente sem significado- mas a pessoa que ele é baseado é simplesmente incapaz de sustentar um relacionamento. Eu tive problemas para fazer com que Eliot passasse essa pessoa com quem eu o identificava muito. Eu espero que a série de TV conserte isso.

Eu não tinha certeza no quão longe eles iriam seguir no perfil de alguns personagens. No caso de Eliot, eles fizeram um bom trabalho, o escreveram muito bem, e também o garoto que o interpreta (Hale Appleman) o entende muito bem, e não tem medo de nada. Ele é muito bom.

Penny está bem diferente na série de como ele é nos livros. Como você se sentiu sobre isso?

Inicialmente, eu não entendi. Não entendi mesmo, mas eu amei o que fizeram o personagem. Ele tem mais camadas, eu acho, as pessoas veem isso à primeira vista. Ele é realmente complicado, ele interpreta um papel principal na série e ele é bem forte. Eu acho que é bom para as pessoas não ligarem muito para Quentin, e Penny, na série, é provavelmente, mais realçado efetivamente que nos livros. Ele é forte e esperto, e profundamente machucado do seu jeito, mas também musculoso e com uma boa aparência.

Bem, todo mundo na série é bem bonito.

Eu sabia que eles iriam fazer isso. E olha- a série é bem mais diversa que o livro, o que é uma melhoria. E de novo, eu penso ao olhar para trás, eu acho que que estava tímido ao escrever os personagens de etnias diferentes, com diferentes planos de fundo raciais… foi covardia da minha parte e eu gosto da forma como eles preencheram essa promessa de ter uma escola de magia realmente diversa. É uma das coisas que eles fizeram certo.

Você passou muito tempo com esses personagens, eu estou certo que você se conectou com eles- transformar isso numa série, você sentiu como se tivesse desistindo do seu bebê?

Eu achei bem difícil. Levou 5 anos para conseguir a série The Magicians feita. Eu estava empurrando e conversando constantemente com pessoas desde que o livro foi publicado. Em 2014, eles finalmente conseguiram. E quando conseguiram, eu entrei em pânico. Haviam algumas bordas que precisavam ser aparadas. Eu quero dizer, sendo um romancista, ser um técnico de laboratório, é uma daquelas carreiras que você escolhe na tentativa de evitar conversar com pessoas ou lidar com as suas opiniões. É um verdadeiro obcecado por controle. Você está acostumado a fazer todos os diálogos, todo o elenco, todo o figurino, todo o plano de fundo, interpretar todas as partes- é difícil entregar isso a todo uma equipe da TV, com 100 pessoas que você nunca viu na vida. TV não é só colaborativo; é como uma multidão trabalhando por uma coisa só, praticamente.

E não é só criativo- existe também negócios envolvidos.

Foi assustador. Houve momentos em que eu choraminguei, momentos em que perdi minha paciência, mas para dar o crédito a todos os envolvidos, eles continuaram me ouvindo. E eles não me calaram durante o processo.

Tem algo que você insistiu para ter na série, ou bateu pé para que algo não acontecesse?

Eu acho que no começo nós conversamos sobre magia, que mudou o tom da série um pouquinho. Inicialmente, magia era muito exagerada; tinham muitas levitações, muito “Lumos”, e sair voando por aí, e aquilo não era magia para mim. Magia envolve todos os sentidos; envolve o clima, envolve coisas serem transformadas, envolve calor ser transferido ao redor; é realmente complicado e funciona em todos os níveis com todos os sentidos, em todos os níveis o tempo todo. Eu acho que que eles definiram o curso correto depois que nós tivemos uma conversa sobre isso.

Bem, eles mostraram certo sexo levitando.

Sim, mas isso não é tão importante para mim. Eu acho que eles se sentiram competitivos com The Expanse, que tem nenhum sexo, e nós, temos sexo flutuante. Sim, estou tentando pensar. Porque eu fiquei chocado com a maneira como Julia foi escrita, e é o único caso em que eu reescrevi alguns momentos para eles, que eles, para seu crédito, usaram. Eu não tenho porque bater o pé; eu sou um dos consultores criativos do show. Tinham coisas que eu expus minha posição sobre, coisas que você não iria pensar, como interpretação específica.

Como você se sentiu sobre Brakebills ser uma universidade de pós-graduação?

Ah, isso não incomodou mesmo. E eu acho que vai ter uma resistência por parte dos fãs, mas não me incomodou. A série é muito sobre os vinte e poucos anos para mim. Os meus vinte anos foram bem catastróficos, e muito dos livros é assim: ser jogado no mundo e tendo que encontrar seu próprio caminho quando não há um Dumbledore para te dizer o que está acontecendo, e não há nenhum Voldemort para matar, é um momento difícil. Foi um momento difícil para mim. Eu não estava preocupado sobre eles se envelhecerem. E os criadores, se eles quiserem, quero ser capaz de levar esses personagens até os 30, e é complicado encontrar personagens que podem ter 17 e 30. Eu acho que eles tiveram muito medo com relação a essa mudança.

The Magicians é comumente elogiado por sua representação sobre depressão. Alguma coisa daquilo venho de sua experiência pessoal?

Totalmente. Eu sempre confessei minha depressão. É algo que, considerando o quão difundido é, não é escrito o suficiente sobre. Eu sinto isso. Eu tenho batalhado com a depressão – muito menos agora – mas eu tive que, seriamente, por um longo tempo, assim como Quentin tem. Os livros fazem bem aos que são clinicamente diagnosticados com depressão, essa é a chave demográfica de The Magicians. É algo com que muitas pessoas que tiveram experiência com responderam positivamente sobre os livros. [Depressão] é uma coisa feia. E, na nossa cultura, existe um certo relacionamento amoroso com ela…, mas quando eu comecei a confrontar de cabeça erguida, eu me senti tão libertado.

Você acha que eles anunciaram muito cedo a importância dos Chatwins na série? No livro, você não sabe que eles são importantes até bem tarde, mas é algo que revelaram quase que imediatamente no pilot.

Isso é uma coisa sobre a TV: histórias são estruturalmente diferentes na TV. Romances são como cozinhar em fogo baixo, tudo é descoberto lentamente; você realmente pode esperar até 2/3 do caminho do livro para revelar coisas importantes sobre a trama e os personagens. Na TV, eu acho que você tenha esse luxo; eu acredito que você tenha que mostrar o que tem na manga bem cedo. E assim é forma como você aborda a história, eu entendo. Eles tiveram que desenrolar algumas revelações no pilot para que as pessoas pudessem entender o âmbito da história que eles estavam contando. Me chocou inicialmente, mas eu entendo.

Há um grupo fechado no Facebook de fãs sérios que posteriormente separou um grupo só para falar sobre a série, que após muito debate, eles me deixaram entrar. E é bem interessante de se ver. Eu quero saber! Eu gosto dos meus fãs, eu gosto de sair com eles. É interessante vê-los meio que ranger os dentes sobre as diferenças. Eu tenho uma negação plausível. Eu não escrevi nada da série- exceto uma ou duas falas da Julia. Mas se for um grande sucesso, eu vou querer todo o crédito.

Fonte: Observer
Tradução e Adaptação: The Magicians Brasil
Não reproduza sem os devidos créditos.